quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Uma longa viagem.


Era pressão de todos os lados. Tinha que ser boa madrinha de casamento, boa namorada, boa filha, boa amiga, boa dupla, boa profissional, boa estudante, até boa escritora e principalmente boa em esconder suas emoções. À medida que pensava em suas obrigações chegava à conclusão de que todo mundo tinha esses tipos de tarefas a cumprir. Era natural que cada um tivesse que cuidar pra fazer tudo de maneira correta. Contudo, mesmo sabendo que vários de seus amigos estivessem sofrendo quase que a mesma coisa, de maneiras diferentes, tinha a impressão latente de que estava no seu limite.
Tinha muitos medos e incertezas, mas o que mais a incomodava era a situação do seu coração. Relembrou vários momentos de seu namoro e quis saber como tudo aquilo tinha chegado a esse ponto. Pensava mesmo estar fazendo a coisa certa em se afastar por um tempo, mas não sabia se isso serviria pra recuperar o amor dele ou se serviria somente pra causar uma separação definitiva.
Naquele dia foi até bom que fosse sozinha no ônibus que a conduziria pra São Paulo. Tinha muito que pensar. Por várias vezes percebera que as lágrimas transbordavam e sabia que se pensasse muito no sorriso, no olhar e nos sonhos que tiveram juntos era previsível que derrubasse muito mais do que somente algumas gotas salgadas dos olhos. Tudo o que fazia era tentar não pensar em tudo. A distância entre eles era quase que imperceptível na frente das pessoas, mas era real. Uma distância que corroía seu coração, mas que a obrigava a sorrir quando tinha vontade de chorar e a forçava a dizer as respostas adequadas para as perguntas intransigentes. Está tudo bem? Quando vai se casar? E o seu namorado?
Observava a rodovia passar diante de seus olhos e finalmente conseguiu deixar-se levar pela embriaguez do sono, que pode dar-lhe de presente alguns minutos de inconsciência.
Quando acordou, desejou sofrer um acidente durante a viagem para poupar o sofrimento, mas isso não aconteceu.
As pessoas viviam dizendo que ela era uma péssima mentirosa, mas mal sabiam que era muito boa. Atuou o dia inteiro como a mesma garota sorridente e feliz que era e por vezes ela mesma acreditou no que fazia. Contudo, depois de se acomodar novamente no banco do ônibus, desta vez, a caminho de casa, as sensações e o nó na garganta voltaram com força. Em casa naquela noite, acabara por descobrir como era chorar até dormir.

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