Era pressão de todos os lados. Tinha que ser boa madrinha de casamento, boa namorada, boa filha, boa amiga, boa dupla, boa profissional, boa estudante, até boa escritora e principalmente boa em esconder suas emoções. À medida que pensava em suas obrigações chegava à conclusão de que todo mundo tinha esses tipos de tarefas a cumprir. Era natural que cada um tivesse que cuidar pra fazer tudo de maneira correta. Contudo, mesmo sabendo que vários de seus amigos estivessem sofrendo quase que a mesma coisa, de maneiras diferentes, tinha a impressão latente de que estava no seu limite.
Tinha muitos medos e incertezas, mas o que mais a incomodava era a situação do seu coração. Relembrou vários momentos de seu namoro e quis saber como tudo aquilo tinha chegado a esse ponto. Pensava mesmo estar fazendo a coisa certa em se afastar por um tempo, mas não sabia se isso serviria pra recuperar o amor dele ou se serviria somente pra causar uma separação definitiva.
Naquele dia foi até bom que fosse sozinha no ônibus que a conduziria pra São Paulo. Tinha muito que pensar. Por várias vezes percebera que as lágrimas transbordavam e sabia que se pensasse muito no sorriso, no olhar e nos sonhos que tiveram juntos era previsível que derrubasse muito mais do que somente algumas gotas salgadas dos olhos. Tudo o que fazia era tentar não pensar em tudo. A distância entre eles era quase que imperceptível na frente das pessoas, mas era real. Uma distância que corroía seu coração, mas que a obrigava a sorrir quando tinha vontade de chorar e a forçava a dizer as respostas adequadas para as perguntas intransigentes. Está tudo bem? Quando vai se casar? E o seu namorado?
Observava a rodovia passar diante de seus olhos e finalmente conseguiu deixar-se levar pela embriaguez do sono, que pode dar-lhe de presente alguns minutos de inconsciência.
Quando acordou, desejou sofrer um acidente durante a viagem para poupar o sofrimento, mas isso não aconteceu.
As pessoas viviam dizendo que ela era uma péssima mentirosa, mas mal sabiam que era muito boa. Atuou o dia inteiro como a mesma garota sorridente e feliz que era e por vezes ela mesma acreditou no que fazia. Contudo, depois de se acomodar novamente no banco do ônibus, desta vez, a caminho de casa, as sensações e o nó na garganta voltaram com força. Em casa naquela noite, acabara por descobrir como era chorar até dormir.
