Eu não ia voltar atrás com aquela viagem. Sabia que aquela escolha seria importante para o meu futuro. Sabia que era isso o que eu queria. Qualquer palavra que ele dissesse serviria apenas para me machucar por saber que ele sofreria com a minha decisão.
- Acho melhor a gente terminar. – Ele disse sem me encarar.
As palavras me chocaram e fizeram meu coração acelerar. Como se eu tivesse sido atropelada pela declaração dele. Pensei em tudo que tínhamos vivido e soube que eu não queria perdê-lo. Em meses eu estaria em outra cidade, em outro país. Um lugar tão desconhecido que para ele era como se nem existisse. Eu poderia me aproveitar do que ele havia falado e ir solteira pra Inglaterra. Mas não era isso o que eu queria. Eu o queria pra mim. Pra sempre. E de repente a viagem não importava muito. Falei a primeira frase desesperada que veio na minha cabeça.
- Tem certeza? - mas por dentro era “Não faz isso, por favor, eu te amo e não quero te perder!”
- Não. – ele respondeu, ainda sem me encarar. - Mas do jeito que está não dá pra continuar.
Era difícil admitir, mas ele estava certo. Dentro de pouco tempo tínhamos brigado muito mais do que o normal. Eu estava cansada. Ele estava cansado. De repente a vontade de desistir do namoro não parecia mais tão apavorante quanto antes. Contudo, no fundo eu sabia que eu não queria um fim, apenas um recomeço.
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Desci do avião meio perdida e segui no túnel que dava para a saída. Estava com saudade de tudo. De falar português, de comer a comida brasileira, do calor, da minha família e dos meus amigos. Mas a ansiedade aumentava ainda mais porque eu sabia que o veria. Seus olhos escuros, seu sorriso meigo, ouviria sua voz. O melhor de tudo era que eu poderia senti-lo. Sentir seu abraço (que era o melhor de todos) e o cheiro do seu perfume. Depois de pegar as malas, ainda tinha que passar pelo free shop. A pressa de chegar me deixou ainda mais desajeitada com as malas e sacolas que eu segurava. Eu o amava. Tinha certeza disso. Não queria mais ficar longe dele. Mesmo sabendo que ele era chato de vez em quando. Mesmo sabendo que ele iria me provocar como sempre faz, só porque gosta de ver minha cara de irritada. Mesmo sabendo que nos dias dos jogos de futebol eu seria ignorada completamente. Mesmo sabendo que ele ia rir dos meus tombos e brigar comigo por ciúmes. Eu já sabia de tudo aquilo. Mas já sabia também que não importava o que acontecesse ele estaria do meu lado. Sabia que ele me ouviria chorar e me abraçaria quando precisasse. Sabia que ele iria me aconselhar e que me daria razão quando percebesse que estava errado. Sabia que iria me fazer rir com as frases mais ridículas e bobas. Sabia disso naquela hora e sei ainda mais agora. Saí no portão de desembarque e nem precisei procurar o seu rosto entre as pessoas. Ele era o que estava mais próximo da saída, ao lado dos meus pais. Nos abraçamos por um tempo em silêncio e o silêncio nos uniu de uma forma que as palavras não conseguiriam. Depois de um tempo percebi, e percebo a cada dia, que as brigas são tão ínfimas perto da profundidade do amor que construímos juntos. Percebo agora que aprendi a amá-lo do jeito que ele é. Amá-lo nos detalhes, amá-lo nos erros e nos acertos, simplesmente amar. Aprendi que amar é sofrer, é acreditar, é esperar, é suportar.
“O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” ICor. 13-7
“O amor nunca falha” I Cor. 13-8a
