segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma amizade - Continuação do post "Mais nada"

Afastou-se de Eduardo o mais rápido que pôde. Ele não a seguiu. Quando ela estava longe o bastante ligou para seu melhor amigo avisando o que havia feito e, aproximando-se da praça central da cidade, sentou-se em um banco em frente ao lago. Começou a chorar tanto que não enxergava um palmo à sua frente. A neblina esfriava as lágrimas quentes que corriam pelo seu rosto. Ela estava com frio. Tinha colocado uma blusa de manga comprida, mas mesmo assim se sentia tremendo. O vento gelado castigava as árvores ao redor. Por causa do frio quase ninguém passava pela rua. Era melhor assim. Ela morria de medo de chegar alguém conhecido e vê-la daquele jeito. Ficou ali por tanto tempo sozinha que até assustou-se quando de repente sentiu um toque de leve em seu ombro.

- Ei moça, posso me sentar? – perguntou uma voz firme e masculina. Era uma voz conhecida, mas ela não se lembrava de quem e também não se interessava em saber. Quem quer que fosse deveria saber que estava atrapalhando. Ela continuou de cabeça abaixada e disse, com a voz embargada:
- Vai embora. – O silêncio foi tão grande que de repente ela achou que estava sozinha novamente. Por isso levou um susto quando ouviu a voz dele de novo.
- Eu até gostaria de fazer o que você quer, mas não consigo deixar você assim, nesse estado.
Ela levantou os olhos e viu seu amigo de infância Felipe com um olhar sério e preocupado, de jaqueta preta, segurando um sobretudo no braço. Ele tinha olhos claros, nem verdes, nem castanhos, um cabelo loiro cacheado e curto. Era branco, e nesse frio sua boca ficava ainda mais vermelha do que já era, assim como suas bochechas. Pela beleza dele, ela sentiu vergonha do estado em que estava, chorando como uma doida. E sozinha. Ela devia estar até descabelada. Ela tentou limpar as lágrimas com as mãos, inutilmente, pois não paravam de sair. Depois estendeu a mão pra pegar o casaco que ele havia trazido especialmente pra ela (ela sabia que era para ela, pois Felipe sempre fazia isso sem o menor esforço – cuidava dela). Ele deu um meio sorriso e ajudou- a colocar o sobretudo. Em silêncio, ele sentou ao lado dela e esperou. Colocou o braço por cima do ombro da garota que sempre foi sua melhor amiga, mas que ele sempre amara, mas ela nunca havia percebido, pelo contrário, o tratava como um irmão. E ele não se importava, contanto que ficasse ao seu lado e pudesse cuidar dela. Mas agora, tudo o que ele podia fazer era esperar a dor que ela sentia passar. Ele sentia-se impotente. Estava com raiva do canalha do Eduardo que a havia machucado tanto. Ela se recostou em seu ombro e chorou. Ele esperou e ela chorou. Quando as lágrimas cessaram, ela perguntou:
- Como me encontrou?
- Bom, depois que você me ligou meio chorando meio falando que havia conseguido fazer a coisa certa depois de tanto tempo tentando, imaginei que você fosse querer vir aqui.
- E então... simplesmente veio? - Ela desencostou dele para olhar em seus olhos.
- Sim. Fiz mal?
- Não seu bobo! - ela riu um pouco e depois ficou séria novamente – Às vezes acho que preciso de você ao meu lado. – Ele sorriu ao ouvir isso e de repente fez uma expressão de quem se lembrou de algo.
- Ah! Já ia me esquecendo! - Disse ele enfiando as mãos nos bolsos. Tirou do bolso direito um bombom. O preferido dela. – Trouxe pra você! Sei que quando chora você gosta de comer chocolate!
Ele entregou o bombom e ficou olhando nos olhos dela. Ela desviou o olhar, tímida.
- Você me conhece tão bem. – surpreendeu-se ela, com medo do que achava que estava sentindo naquele momento.
- Posso te perguntar uma coisa? – Ele disse olhando para o chão.
- Pode – ela disse, ainda com medo.
- Você ainda ama aquele cara?
- Pergunta difícil.
- E qual é a resposta?
- Não.
- Então porque chorou tanto?
- Essa verdade me dói. Eu não o amo mais. Ponto final. Dói saber que não tenho mais a quem amar em quem pensar ou com quem me preocupar.
- É. Essa verdade me dói.
- Qual? A de que eu não amo o Eduardo mais?
- Não Julia, - disse ele fitando a paisagem do lago com as arvores ao redor, balançando com o vento. - A de que você acha que não tem mais a quem amar.

Ele se levantou e saiu. Deixando a para trás pela primeira vez. Agora, as lágrimas estavam nos olhos dele. “Ela já não precisa mais de mim”, pensou, “Já estava aquecida e com chocolate. Não precisava de mais ninguém”. Mas ele sentia que precisava dela.